Conheça o estilo Rubber Hose e seus principais artistas

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Imagine personagens com braços e pernas simples que se dobram como mangueiras de borracha, movimentos exagerados e uma estética nostálgica que remete aos primórdios da animação. Esse é o estilo Rubber Hose, uma das expressões artísticas mais icônicas e charmosas da história da animação, que marcou as décadas de 1920 e 1930 e continua influenciando criadores até hoje.

O que é o estilo Rubber Hose?

O termo “Rubber Hose” (mangueira de borracha, em tradução literal) define um estilo de ilustração e animação característico dos primeiros anos da indústria de desenhos animados. A origem do nome é bastante literal: os personagens eram desenhados com membros tubulares e flexíveis, que lembravam mangueiras de borracha, permitindo movimentos fluidos e exagerados que seriam impossíveis na anatomia humana real.

Essa abordagem simplificada nasceu não apenas de uma escolha estética, mas também de necessidades práticas. Nos anos 1920 e 1930, cada quadro de animação era desenhado à mão, e criar personagens com articulações simplificadas tornava o processo de animação mais rápido e menos custoso. O resultado? Personagens memoráveis com designs limpos, formas arredondadas e uma capacidade única de se contorcer, esticar e comprimir de maneiras surreais.

Os ícones que definiram o estilo

Os exemplos mais famosos do estilo Rubber Hose são personagens que se tornaram verdadeiros ícones da cultura pop e permanecem reconhecíveis até hoje. Oswald the Lucky Rabbit, criado por Walt Disney e Ub Iwerks em 1927, foi um dos primeiros protagonistas a popularizar essa estética, com suas orelhas longas e movimentos elásticos.

Mickey Mouse, que estreou em “Steamboat Willie” (1928), talvez seja o exemplo mais emblemático do Rubber Hose. Suas primeiras aparências exibiam todas as características marcantes do estilo: membros tubulares, luvas brancas, sapatos grandes e movimentos fluidos e musicais.

Felix the Cat, criado por Otto Messmer e Pat Sullivan, foi outro pioneiro do estilo, com seu corpo preto icônico e expressões extremamente flexíveis. Betty Boop, a personagem sedutora e carismática de Max Fleischer, encantou o público com seus olhos grandes e movimentos cheios de personalidade. Popeye, o marinheiro comedor de espinafre, também trazia os elementos característicos do Rubber Hose, especialmente em seus antebraços exageradamente musculosos e movimentos elásticos.

Características marcantes do Rubber Hose

O estilo possui elementos visuais inconfundíveis que o tornam facilmente reconhecível:

Membros flexíveis e tubulares: Braços e pernas sem articulações definidas, que se curvam e esticam livremente, como se fossem feitos de borracha.

Luvas brancas e sapatos grandes: Quase todos os personagens usavam luvas brancas (que facilitavam a visualização das mãos contra fundos escuros) e sapatos desproporcionalmente grandes.

Rostos expressivos e simplificados: Olhos grandes e redondos, muitas vezes apenas círculos com pupilas, e bocas que podiam se expandir além dos limites do rosto para expressar emoções exageradas.

Movimento fluido e elástico: A animação priorizava a fluidez sobre o realismo, com personagens que se moviam de forma quase musical, frequentemente sincronizados com as trilhas sonoras.

Paleta de cores limitada: Devido às restrições tecnológicas da época, os desenhos costumavam usar preto, branco e tons de cinza, com eventuais toques de cor.

O ressurgimento na cultura pop

Embora o estilo Rubber Hose tenha suas raízes firmemente plantadas na Era de Ouro da animação, ele nunca realmente desapareceu. Nos dias atuais, um dos exemplos mais celebrados desse ressurgimento é a animação “Get a Horse!” da Disney (2013) e o jogo Cuphead (2017), lançado pelo StudioMDHR.

Cuphead capturou perfeitamente a essência visual e sonora dos desenhos animados clássicos, incorporando a estética Rubber Hose em cada frame de sua jogabilidade. Com personagens desenhados à mão, animações fluidas e uma trilha sonora que remete às big bands da época, o jogo não apenas homenageou o estilo vintage, mas o apresentou a uma nova geração de fãs, provando que a magia desses primeiros dias da animação permanece atemporal.

Principais artistas do movimento

O estilo Rubber Hose não teria alcançado seu status icônico sem a visão criativa de alguns artistas pioneiros que moldaram a linguagem visual da animação:

Winsor McCay: Considerado um dos pais da animação, McCay criou obras revolucionárias como “Gertie the Dinosaur” (1914), estabelecendo muitos dos princípios que influenciariam o Rubber Hose.

Max Fleischer: Criador de personagens eternos como Betty Boop e Popeye, Fleischer foi fundamental para definir a estética Rubber Hose, trazendo inovações técnicas e um estilo visual distintivo que misturava surrealismo e humor.

Ub Iwerks: Animador extraordinariamente talentoso que trabalhou ao lado de Walt Disney e foi responsável pela animação de muitos curtas iniciais do Mickey Mouse, incluindo “Steamboat Willie” (1928).

Walt Disney: Embora mais conhecido por evoluir além do estilo, Disney foi essencial em seus primeiros anos, com Mickey Mouse sendo um dos exemplos mais icônicos do Rubber Hose.

Artistas atuais do Rubber Hose

O ressurgimento do estilo Rubber Hose nos últimos anos não aconteceu por acaso. Uma nova geração de artistas e desenvolvedores redescobriu o charme dessa estética vintage e tem trabalhado para trazê-la de volta à vida, combinando técnicas tradicionais com tecnologias modernas.

Matthieu Bessudo (McBess): que traz uma uma abordagem única e surreal que é inconfundivelmente sua. McBess é facilmente identificável por sua preferência pelo uso de tons preto e branco, evitando deliberadamente o uso de cores em grande parte de seu trabalho.

Chad e Jared Moldenhauer (Studio MDHR): são os irmãos canadenses responsáveis pelo fenômeno Cuphead. Fundadores do Studio MDHR, eles passaram anos desenvolvendo o jogo que se tornaria o maior exemplo contemporâneo do estilo Rubber Hose. Chegaram a hipotecar suas casas para financiar o projeto, que levou sete anos para ser concluído. Cada frame foi desenhado à mão em papel antes de ser digitalizado, num processo que replicava fielmente as técnicas dos anos 1930. Chad Moldenhauer, diretor de arte, citou os Fleischer Studios como “o norte magnético de seu estilo artístico”, especialmente pela abordagem subversiva e surrealista.

TheMeatly (Paul Crawford) e Mike Desjardins: são a dupla por trás de Bendy and the Ink Machine, outro jogo que abraçou a estética dos desenhos clássicos, porém com uma abordagem de terror. TheMeatly, que prefere manter o anonimato aparecendo apenas como um fantoche em entrevistas, teve a ideia original ao imaginar como seria caminhar em um mundo que parecesse um desenho esboçado. O jogo, que começou como um projeto paralelo de cinco dias, tornou-se um sucesso viral que transformou a dupla em desenvolvedores em tempo integral.

Rubber Hose no Brasil

No Brasil, artistas também têm explorado o revival do Rubber Hose. Tony Babel, Rodrigo Brandão e Cristiano Siqueira são nomes que trabalham com inspirações vintage e incorporam elementos do estilo clássico em projetos contemporâneos, seja em ilustrações, animações ou design gráfico. Esses artistas demonstram como o Rubber Hose transcendeu fronteiras e continua inspirando criadores ao redor do mundo, provando que a linguagem visual dos anos 1920 e 1930 possui um apelo global.


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